“O hip hop moçambicano é o melhor dos PALOP,” afirma empresário Sidney Mavie

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O hip hop em Moçambique começou a ganhar destaque na década de 90 e vem amadurecendo desde então. A dificuldade económica que o país enfrenta não ajuda artistas, músicos nem produtores musicais, mas a paixão pelo estilo só fica cada vez mais forte.

Nos últimos três anos a GM Record tem se destacado pelo trabalho notável de já ter lançado 39 álbuns. Para falar sobre esse projeto, o mercado do hip hop nacional, a venda de CDs e a autossustentabilidade que os artistas precisam desenvolver para sobreviver no ramo, conversamos com Sidney Mavie, director-geral e executivo da GM Record, também conhecido como DJ Sidney.

Sidney Mavie, diretor-geral e executivo da GM Record, Moçambique
Sidney Mavie, diretor-geral e executivo da GM Record, Moçambique

Quando o empresário decidiu lançar o projeto de produzir 40 álbuns de hip hop em três anos ele não se importou muito com a ideia de que vivemos na era digital e de que há um consumo alto de músicas nas plataformas digitais, como Spotify, Pandora e iTunes. Ele fez uma pesquisa e descobriu que havia mercado para o seu negócio.

Teve que ir aprendendo com cada lançamento, às vezes tendo lucro e às vezes perdendo o dinheiro investido. Como trabalha com artistas renomados, entre eles Duas Caras, Hernâni da Silva, Azagaia e Escudo (Dinastia Bantu), produz discos de alta qualidade. Por outro lado, também dá oportunidade para jovens que estão em início de carreira, ou menos conhecidos.

“A marca associa-se a grandes nomes, mas no final do dia há rapazes que precisam da minha ajuda”.

Azagaia, Escudo e DJ Sidney no dia da gravação da música Turno Nocturno na GM Record, Moçambique, 2017
Azagaia, Escudo e DJ Sidney no dia da gravação da música Turno Nocturno na GM Record, Moçambique, 2017

Para tornar o seu negócio sustentável criou a opção da réplica e da duplicação. A réplica custa mais caro e é um produto de qualidade, onde o custo do álbum fica em torno de 350 meticais. Já a maquete, a duplicação do CD com uma estampagem de qualidade baixa, fica em torno de 200 meticais. E assim o projeto foi se desenvolvendo e 39 álbuns foram lançados desde 2017, sendo que três deles “Agora Ou Nunca” do DRP, “Pensar Antes de Zangar” do Lepre Coins (cidade de Pemba, norte do país), e “Obrigado Jesus” do Mais Bençãos, álbum gospel (evangélico), foram lançados este ano, mas sem público, devido à pandemia do coronavírus.

Entre os CDs mais vendidos pela produtora estão “Duduitos Way” do Duas Caras (2017), “Plata o Plomo” do Sleam Nigga (2018), “Sextas Felizes” do Hernâni da Silva (2018) e “Rapper do Povo” do Bander (2019).

À esquerda, Gina Pepa e Deusa Poética
À esquerda, Gina Pepa e Deusa Poética

Sobre o hip hop feminino, o empresário disse que muita coisa tem que ser feita para melhorar a condição de trabalho das rappers. Mavie contou que está trabalhando com Carina Houston, beat maker da província da Beira, para produzir um álbum com 17 vozes no total. Deusa Poética e Gina Pepa fazem parte do grupo. Infelizmente, por causa da pandemia do coronavírus, o lançamento do álbum foi adiado e ainda não tem data para sair.

Mavie afirmou que a produção de hip hop poderia estar melhor se o país não enfrentasse tantos desafios socioeconómicos. Por enquanto, ele se dedica à música como um hobby, usando o salário que ganha junto com outras atividades para financiar os trabalhos desenvolvidos pela GM Record.

“Dá gosto de trabalhar no rap porque no final do dia é o nosso hobby. Nós fizemos o investimento porque gostamos”.

O auto-sustento do artista

Produzir um álbum de qualidade custa caro. Mavie explicou que o que arrecada com as vendas dos CDs cobre apenas o custo de fazer o disco. Ele enfatiza que é preciso que o artista trabalhe para conseguir espetáculos e se associe a outras marcas para cobrir os gastos com a produção do álbum.

“No final do dia temos que ver que o artista é uma marca e ele tem que se associar a outras marcas para que essas marcas possam vender. O que tem acontecido comigo? Eu tento me associar aos melhores e eles vão fazer outras pessoas chegarem à minha marca. Os músicos que não são muito populares serão consequência da minha marca ter se associado aos melhores”.

No que toca aos sonhos e planos para o futuro, o empresário quer ver os discos que produz serem autografados e vendidos em todas as províncias de Moçambique. Quer também trabalhar na padronização dos CDs, bem como no desenvolvimento da venda digital. Mavie quer ajudar a criar o autoemprego para os ghostwriters. Ele acredita que a sua empresa pode servir de trampolim para os compositores de letras de hip hop. O empresário também quer acabar com a falta de informação sobre o hip hop nacional na Internet, disponibilizando informações sobre o estilo na Wikipédia.

Quando perguntado sobre a qualidade do hip hop em Moçambique, o empresário respondeu que é muito boa, mas reconheceu que precisa haver uma melhora nas letras das músicas.

“Em termos de qualidade, o hip hop nacional, na minha opinião, é o melhor dos PALOP”.

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